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ACENDA A LATERNA!


"Em me vindo o temor, hei de confiar em ti" (Salmo 56:3).


É Meia noite. Na casa silenciosa e escura tudo quieto. Lá fora o vento uivante, balança as janelas, cachorros latem ao longe, nada ouço além do ressonar suave das minhas filhas que dormem. O meu sono se foi.
Experimentei de tudo até contar carneirinhos. Perdi a conta de quantos carneirinhos pularam a cerca do curral e nada de sono! Pensei em levantar e trabalhar, escrever, ler, sei lá... Foi aí que aconteceu!
Um barulho ecoou no meio da noite, vinha da nossa sala de estar. Minha filha disse sonolenta: "estranho"! Mas voltou a dormir como se nada tivesse acontecido.
Meu coração bateu descompassado, tentei enxergar além. Mas era impossível, minutos antes havia apagado quase todas as luzes da casa para dormirmos. Tentei levantar, mas as pernas não me obedeciam! Gritar?? Ninguém viria me ajudar! Algo pesado caiu na sala! Passei a imaginar o que tinha na sala: Sofá, centro, etc Nada que justificasse uma queda daquelas. Será que alguém conseguiu entrar pela janela?? Senti arrepios de terror. Queria girar a cabeça para olhar, mas o pescoço estava rígido!Tremia de medo. Medo?? Eu?? Uma mulher tão corajosa??
De um salto pulei da cama, lembrando de um versículo bíblico que recitava sempre quando criança: "Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação”. (Is 12.2)
Marchei para a sala munida de confiança. (Mas ainda trêmula) , acendi a luz e zás! Lá estava o motivo do meu terror!!
Espalhadas pelo piso branco da nossa sala de visitas, umas flores e sua base de cimento, que tinha se desprendido do vaso.
Ufa!! Respirei fundo e pensei como o medo é terrível!
Uma série de fatores em cadeia prepara o nosso corpo para lidar com uma ameaça, inclusive
a vazão repentina de adrenalina, noradrenalina e vários outros hormônios causa mudanças no corpo: aumento da pressão arterial e freqüência cardíaca; as pupilas dilatam para receber a maior quantidade possível de luz; as artérias da pele se contraem para enviar uma quantidade de sangue mais significativa aos grupos musculares maiores (reação responsável pelo "calafrio" muitas vezes associado com o medo - há menos sangue na pele para mantê-lo aquecido); o nível de glicose sangüínea diminui; os músculos enrijecem, energizados por adrenalina e glicose (reação responsável pelos arrepios - quando pequenos músculos conectados a cada pêlo da superfície da pele tencionam, os fios são forçados para cima, puxando a pele com eles); a musculatura lisa relaxa para permitir que entre uma maior quantidade de oxigênio nos pulmões; sistemas não essenciais (como o digestivo e o imunológico) são desligados para guardar a energia para as funções de emergência; há dificuldade para se concentrar em tarefas pequenas (o cérebro deve se concentrar em somente uma coisa para determinar de onde vem a ameaça). Todas essas reações físicas têm a intenção de ajudar a sobreviver a uma situação perigosa. O medo (e a reação de luta ou fuga em particular) é um instinto que todo animal possui. Inclusive nós "animais racionais". E eu também.
Uma parafernália de mudanças acontece em nosso corpo. E o pior é quando se vive um medo constante!
A melhor forma de driblar o medo é confiar. Cuidar da nossa segurança, fazendo a nossa parte e o que não depender de nós, entregarmos nas mãos do Senhor e confiar. Confiar em Deus é a melhor forma de não ter medo.
É normal sentirmos medo. É até uma forma de nos proteger contra agentes agressores. Falo de um medo normal, não um medo patológico.
Durante a polêmica que existia no século XIX a respeito da evolução, a "face do medo" (a expressão de olhos arregalados e boca aberta que costuma acompanhar o medo extremo) se tornou motivo de discussão. Por que as pessoas fazem essa expressão quando estão aterrorizadas? Muitos foram os questionamentos.
Charles Darwin, por outro lado disse que essa expressão, era o resultado de um enrijecimento instintivo dos músculos disparado por uma resposta desenvolvida para o medo e, para provar isso, foi à seção de répteis do zoológico de Londres. Tentando permanecer totalmente calmo, aproximou-se o máximo possível do vidro enquanto uma víbora disparava em sua direção do outro lado. Em todas as tentativas, ele fez aquela cara e pulou para trás. Em seu diário, ele escreveu: "minha força de vontade e razão estavam impotentes contra a imaginação de um perigo pelo qual jamais havia passado". A conclusão a que chegou foi a de que toda a reação ao medo é um instinto antigo intocado pelas nuanças da civilização moderna [ref - em inglês].
Somos Criados por Deus e ele conhece o nosso interior, as nossas reações ante as intempéries da vida, então ninguém melhor que Ele, para nos ajudar em momentos de medo.
Tive uma paciente que se queixava de medo na noite. Medo de escuro, medo de situações inesperadas, medo de não conseguir "ver" e lidar com a sua própria vida. Tivemos poucas sessões de análise. Ela morava em outra cidade que a minha e não podia vir ao meu consultório. Eu fui até ela e como o tempo corria eu sugeri que nos momentos que ela sentisse medo do escuro. Seja literalmente falando, ou os "escuros das situações que a aterrorizavam", imaginasse que estava com uma poderosa lanterna na mão e podia acendê-la.
Eu disse: Quando sentir medo do escuro acenda a lanterna!
Quando acendemos a luz, os fantasmas do escuro desaparecem!
Eu acendi a luz da sala e vi apenas minhas flores caídas ao chão. Imaginei que alguém tinha pulado a janela e estava ali no escuro, esperando um melhor momento para atacar, mas quando acendi a luz, o medo se foi! Vi que era apenas minhas flores. É hilário: O "fantasma do medo" transformou-se em "flores"!
Bem ditas às palavras de Cristo: "Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará em trevas"!
Outro dia falei com a minha paciente:
- E aí, como está se sentindo? Ela me respondeu sorrindo: Ah! Eu aprendi acender a lanterna!
Maravilha!! Deus é a nossa Luz, a nossa "lanterna"! O medo é driblado quando confiamos nele.
Juntemo-nos “ao Salmista quando diz: ““ Em me vindo o temor, hei de confiar em ti” (Salmo 56:3).